Nunca o exílio do presidente constitucional João Goulart deposto pelo Golpe de 64 foi relatado com tantas minúcias e emoção, quanto no livro que acaba de sair “Jango e Eu – Memórias de um exílio sem volta”.
Seu autor, João Vicente Goulart, que tinha apenas sete anos na época, acabou se tornando, além do filho dedicado, um confidente durante as quase 24 horas, ao longo dos 12 anos de exílio do presidente deposto até sua morte, na Argentina, em 1976.
É que João Vicente, que fazia as vezes de secretário, motorista, acompanhante de jornadas e, por último, de intérprete, teve o cuidado de guardar as agendas, anotações e planilhas, inclusive dos negócios do pai. A partir de cotejo destas e de seus próprios apontamentos, o hoje presidente do Instituto João Goulart, oferece ao leitor um precioso manancial de informações do Brasil e da América Latina daqueles anos de chumbo.
Tampouco fica limitado às lamúrias do degredo, como suas prisões e torturas, inclusive aquela quando mal tinha completado os 16 anos, lhe rasparam a cabeça. João Vicente revive com alma as conversas de Jango com estadistas e líderes políticos brasileiros e do exterior, como os generais Charles De Gaulle e Juan Domingo Perón. No exílio deste, em Madri, em 1972, antes de retornar ao poder na Argentina, Perón recebeu Jango para uma longa conversa.
Jango, que conhecia Perón, desde sua época de jovem assessor de Getúlio Vargas, no refúgio do ex-presidente em São Borja, a partir de 1945, despertava interesse em Perón, pelas relações internacionais e, principalmente, suas conexões comerciais com a União Soviética, China e África.
Como se sabe, Goulart, que continuou como grande exportador de carne no Uruguai, atividade que exercia no Brasil antes ser presidente, foi muito útil à política externa peronista, a partir de 1972. O país irmão vivia uma época recessiva e seu principal produto, a carne, necessitava de negociações fora da dependência do mercado cativo com o norte.
Num diálogo, transcrito de memória, João Vicente conta a reação de Perón, quando Jango indagara sobre a missão, na residência de Puerta de Hierro, em Madri, de dois generais encarregados pelo general presidente Augustín Lanusse, então encarregado de fazer a abertura política. Os generais tinham ido entregar o decreto que recuperava a patente de tenente-general de Perón, cassada pelos militares, no golpe de 1955.
– Eu lhes disse que voltassem a meu país e falassem a seu presidente ilegal que, para chegar a general do Exército argentino, precisei talvez 20 anos de estudo, assim como ele (general Lanusse). Mas para me tornar Juan Perón precisei ter colhões. E que ele enfiasse no rabo as insígnias que desejava me devolver – respondeu Perón a Jango.
O livro de João Vicente ainda relata minuciosamente os diálogos e divergências de Jango, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Darcy Ribeiro, Waldir Pires e outros políticos brasileiros, assim como as reuniões, em Paris, Londres e Madri, para onde o ex-presidente costumava se deslocar, depois que recebeu um passaporte paraguaio (o governo militar brasileiro havia cassado o seu), que lhe fora fornecido pelo então presidente general Alfredo Stroessner, amigo comum de Perón e Jango.
Finalmente, João Vicente destaca, nesta videoentrevista a FC Leite Filho, do Café na Política, as semelhanças dos golpes e conspirações contra seu pai, Dilma Rousseff (Brasil), Fernando Lugo Paraguai), Mel Zelaya (Honduras): “São os mesmos atores, Fiesp à frente, e sempre transvestidos de legalidade”.
Livro do filho de Jango: a história nunca foi tão atual
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